Citação


[OS ATORES] SÃO A CRÔNICA SUMÁRIA E ABSTRATA DO TEMPO

William Shakespeare

domingo, 17 de janeiro de 2010

OBRIGADA JUCA FERREIRA!!

Desejo compartilhar com todos vocês uma das maiores experiências em teatro que já tive.

Fui assistir ao espetáculo "Viver sem tempos mortos" sobre a escritora Simone de Beauvoir, com a atriz Fernanda Montenegro, no teatro da Oi Futuro, no Rio de Janeiro. Todos os 84 ingressos foram vendidos ou estavam nas mãos de convidados. Então, para não perder a viagem, esperei persistentemente uma desistência. Quer dizer, esperamos, pois éramos três. As portas do teatro se abriram e lá estávamos nós, ansiosas por três desistências. Havia uma fila enorme e a cada ingresso que se rasgava na nossa frente, uma batida mais acelerada em nossos corações. Finalmente, o técnico do teatro nos procurou e disse que havia apenas UMA, UMA única desistência. Instalou-se uma tensão, mas decididamente propus que tirássemos a sorte! E para MINHA surpresa, GANHEI!! Corri e sentei-me na cadeira número 1 da fila D. Uma das primeiras frases que ouvi: "o acaso é a última palavra"!

Fatalidade ou não, fui abençoada pelo acaso e por acaso eu vi este espetáculo, por acaso a Sra. Fernanda voltou aos palcos depois de oito anos e, surpreendentemente, Juca abriu as portas para esta realização, haja vista o projeto ter sido REPROVADO, ao dar entrada numa lei de INCENTIVO À CULTURA, por uma suposta comissão que supõe-se juiz de... de que mesmo? Será que eles sabem o que pretensamente julgam? Qual critério para designar o que o outro deve assistir, o que o outro deve sentir, o que o outro deve pensar? Esta patrulha subestima o outro, subestima a nossa capacidade de pensarmos por nós mesmos, de sentirmos por nós mesmos, de sermos nós mesmos. Quando assistimos a uma peça, não sabemos o que ela pode nos revelar, qual sensação pode nos arrebatar, com qual intensidade podemos mergulhar em nossa própria alma a partir da imagem do outro, da peça ou de si mesmo. O que há é um espelho onde podemos refletir todas as nossas vivências, todas as nossas tristezas e alegrias. E a este reflexo ninguém tem acesso, ninguém pode ver, ninguém pode julgar!

Um palco, uma cadeira, um refletor e uma atriz, assim se fez o maior encontro teatral que eu já tive nos últimos tempos. Num palco pequeno e vazio, Fernanda chorou, sorriu e nos presenteou alguns instantes da vida de Simone de Beauvoir. As palavras emanavam imagens e existência. Não sabia para onde olhar, se para a atriz no palco ou para dentro de mim. As palavras atravessavam o meu espírito e não havia caras e bocas, não havia braços e pernas, não havia ruídos, não havia efeitos de nenhuma espécie. Era apenas a atriz e as suas palavras. O que eu tive a bendita sorte de ver era essencialmente teatro, da mais pura e silenciosa qualidade. Só os grandes e majestosos artistas conseguem fazer do silêncio um instante eterno. Longe das cores dos refletores, da tecnologia do tilintar dos bips e chips e da ignorância do histrionismo gratuito. Elas estavam a sós, Fernanda e Simone. As duas era um só corpo, sentado numa cadeira até o fim.

ERA APENAS UMA CADEIRA E UMA ATRIZ!!

Obrigada Juca Ferreira por proporcionar aos poucos privilegiados a oportunidade de poder ouvir e enxergar através da janela da alma de Fernanda Montenegro, realmente uma das maiores atrizes do nosso século. Uma rara atriz que consegue traduzir em imagens um texto narrado. A palavra dignamente também volta aos palcos depois de 8 anos. E dignamente caminha dentro de um feliz projeto de levá-la para a periferia a preços populares, dando a raríssima e necessária oportunidade de outros mundos poderem ouvir um texto bem dito e bendito!! De podermos, todos, sem distinção, ter o direito de ouvir e pensar através da palavra. Apenas da palavra. E isso é possível!! Evoé baco!!

Ao final do espetáculo fomos convidados para prosear com uma especialista em Simone de Beauvoir e a própria Fernanda Montenegro! Estavam presentes na platéia artistas reconhecidos pelo grande público, como Francisco Cuoco e Malu Mader, acompanhada do seu marido Toni Belloto, ex-Titãs. Entretanto, a este bate-papo também teve acesso pessoas anônimas, moradores distantes dos teatros do centro, por onde o espetáculo passou. E em meio às celebridades e anônimos, o primeiro comentário foi o meu, de uma simples atriz desconhecida do grande público, embriagada com a elegância e a sobriedade das palavras de Simone e com os olhos brilhantes de Fernanda. Agradeci diretamente a ela, Fernanda, pelo presente dos nossos acasos e, principalmente, por continuar fazendo teatro de uma forma tão contundente aos oitenta anos de idade!! São sessenta anos de carreira!! Sessenta anos tentando dar ao teatro a dignidade que ele merece!! Um momento ímpar na minha vida! Tão ímpar quanto poder ver novamente de volta aos palcos uma atriz de igual quilate e da minha terra, a Bahia, Yumara Rodrigues!! Só para lembrar aos esquecidos!!

Obrigada Juca Ferreira por não subestimar o outro, seja ele morador da periferia ou de um bairro nobre qualquer! Obrigada Juca Ferreira por dar alcance a estas vozes, Fernanda e Simone, e fazê-las ressoar o cântico da reflexão, da crítica e da liberdade! Obrigada Juca Ferreira por dar-nos a chance de ver legitimado um discurso democrático e não populista! Obrigada Juca Ferreira por permitir, inequivocamente, um teatro de extraordinária qualidade num mundo tão tecnocrata e abusivamente mascarado pela NEVERLAND!

Em êxtase,
Cristina Dantas, atriz
01:00 03/08/2009 RJ

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