Citação


[OS ATORES] SÃO A CRÔNICA SUMÁRIA E ABSTRATA DO TEMPO

William Shakespeare

domingo, 17 de janeiro de 2010

ALÍNGUA DE KASPAR HAUSER E GEORG TRAKL

CANÇÃO DE KASPAR HAUSER
para Bessie Loos:
"Ele de fato amava o sol que descia a colina purpúreo, / Os caminhos da floresta, o canto do pássaro negro / E a alegria do verde. , / Sisuda era sua morada à sombra da árvore/ E puro o seu rosto. / Deus disse ao seu coração uma doce chama: / Homem!/ Tranqüilo, o seu passo encontrou a cidade à noite; / O lamento sombrio de sua boca: / Quero tomar-me cavaleiro. / Seguiram-no porém arbusto e animal, / Casa e jardim crepuscular de gente branca, / E procurava-o seu assassino. / Primavera, verão e belo o outono / Do justo, seu passo leve /Pelos quartos escuros de sonhadores.À noite ficava sozinho com sua estrela; / Viu que nevava em galhos nus,/ E a sombra do assassino no tenebroso vestíbulo da casa. / Prateada, tombou a cabeça do não-nascido./
(Georg Trakl / tradução: Cláudia Cavalcante)

Georg Trakl, poeta austríaco, que usa a palavra como metáfora nos processos de montagens poéticas, articulando-as entre si, utiliza-se de fragmentos de imagens isoladas e as justapõe em montagens metafóricas para destruir o verbal numa linguagem do indizível . Segundo Modesto Carone, Georg Trakl, em seu descontínuo poético, elabora um poema constituído de unidades do discurso à margem do próprio poema. Como se houvesse uma estrutura encobridora de uma semântica outra em substituição. Trakl organiza as metáforas, para aproximar-se de uma tentativa em nomear o não-dito.

Desta forma, tende à negação do que já se verbalizou no âmbito da linguagem, do calculado dizível. Ao quebrar com o convencionalismo - não na esfera sintática, como os concretistas, nem no automatismo dos surrealistas, nem na liberdade dos futuristas - na combinação alógica das metáforas e na justaposição não-linear, supõe a sua estilização estética para revelar a leitura de um mundo fragmentado e estilhaçado pela primeira guerra, bem como de um mundo interno despedaçado pela própria psicopatologia. Ele viveu em meio às drogas e ao suposto amor apaixonado pela irmã. George Trakl nasceu em Salzburg em 1887 e morreu em 1914, aos 27 anos de idade, num hospital psiquiátrico.

E o indizível apresenta-se num horizonte que vai à contra-mão do sentido. Portanto, em sua aparência supostamente normativa, com as frases combinadas gramaticalmente, Trakl revela um novo código que está para além de um enigma ou de um hermetismo que o obscurantiza. É através da poesia que ele fala para o Outro, “o não-nascido”.

Em seu poema CANÇÃO DE KASPAR HAUSER, Trakl aponta para um sujeito solitário em sua impossibilidade de fala, mas com significantes de gozo não-articulados sintaticamente.

Kaspar Hauser, um jovem que aos dezesseis anos surge em Nüremberg, Alemanha (1828), sem falar, tendo apenas o conhecimento elementar de algumas palavras, na medida em que vai absorvendo-as pelo imperativo da força social que o exige, dilui-se num processo mortificante para a sua subjetividade, tornando-se um objeto manipulável. Em contrapartida, essas mesmas palavras servem de instrumento para a sua própria defesa.

Ao perceber que possui um caminho que atravessa a própria língua, mordido por uma dor que surge face à constatação da incomunicabilidade, desta mudez social que o angustia e o leva ao balbucio, Kaspar Hauser transgride e questiona a sua ontologia, pois apresenta, em sua também curta vida social, de 1828 a 1833, um rápido processo cognitivo muito além das expectativas para um jovem que foi encontrado supostamente “recém-nascido” perdido numa praça em Nüremberg. Havia uma carta em suas mãos onde continha o seu nome e de que tinha sido descoberto na porta da casa de um suposto preceptor que o acolheu e o colocou em um porão escuro para escondê-lo das pessoas . Neste ele viveu por dezesseis anos sem acesso à luz, às pessoas, ao aprendizado comum iniciado às crianças.

Kaspar é um enigma, um saber inconsciente “não-nascido”, pois assumiu para si o não-todo da linguagem, nesta tentativa de sair do monólogo para um diálogo. Não nasceu para o mundo e foi assassinado aos 21 anos de idade. E Trakl ao falar de Kaspar identifica-se em sua incapacidade de fala, ambos comungam com este traço alingüístico, ou seja, para além da literariedade das raízes lingüísticas.

Kaspar Hauser não se comunica, ele tenta falar e a sua fruição respinga sobre o próprio gozo infantil ao balbuciar os primeiros sons fonéticos para articular o seu saber que não se sabe, portanto um enigma mesmo. Essa articulação das coisas é ontológica e implica uma vertiginosa interrogação sobre a origem da vida do ser. Sem sintaxe que o aprisione, é torturado pelos sentidos do Outro, pelas frases e sobre-frases que se dirigem impositivas a ele.

Esta linguagem impositiva, quer dizer, específica de uma convenção lingüística, ou mais oportunamente, científica, regimenta uma ordem que controla o sujeito pelas ideologias que a sustentam. Para Lacan “(...) a linguagem é apenas aquilo que o discurso científico elabora para dar conta do que chamo alíngua” . Nesta perspectiva o que resta a este sujeito de fala, de gozo, neste emaranhado desarticulado que se pretende organizado para enredá-lo e deixá-lo estático sem discurso?

E o resto é silêncio... ou a poesia.

Cristina Dantas
SET/06

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