Citação


[OS ATORES] SÃO A CRÔNICA SUMÁRIA E ABSTRATA DO TEMPO

William Shakespeare

terça-feira, 18 de maio de 2010

PINA BAUSCH

Pólis de si mesma - Viva
Ifigênia em Háulis - Atos
Nascida como uma argiva
Artesã dos bacos embriagados

BOOK

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quinta-feira, 6 de maio de 2010

PRÓXIMO RECITAL...

FIQUEM ATENTOS!!!

BREVE ESTAREMOS DE VOLTA ANTES DO PÔR DO SOL...

Já estamos preparando o nosso próximo recital com poesias do poeta DAMÁRIO DA CRUZ!!!

domingo, 17 de janeiro de 2010

ALÍNGUA DE KASPAR HAUSER E GEORG TRAKL

CANÇÃO DE KASPAR HAUSER
para Bessie Loos:
"Ele de fato amava o sol que descia a colina purpúreo, / Os caminhos da floresta, o canto do pássaro negro / E a alegria do verde. , / Sisuda era sua morada à sombra da árvore/ E puro o seu rosto. / Deus disse ao seu coração uma doce chama: / Homem!/ Tranqüilo, o seu passo encontrou a cidade à noite; / O lamento sombrio de sua boca: / Quero tomar-me cavaleiro. / Seguiram-no porém arbusto e animal, / Casa e jardim crepuscular de gente branca, / E procurava-o seu assassino. / Primavera, verão e belo o outono / Do justo, seu passo leve /Pelos quartos escuros de sonhadores.À noite ficava sozinho com sua estrela; / Viu que nevava em galhos nus,/ E a sombra do assassino no tenebroso vestíbulo da casa. / Prateada, tombou a cabeça do não-nascido./
(Georg Trakl / tradução: Cláudia Cavalcante)

Georg Trakl, poeta austríaco, que usa a palavra como metáfora nos processos de montagens poéticas, articulando-as entre si, utiliza-se de fragmentos de imagens isoladas e as justapõe em montagens metafóricas para destruir o verbal numa linguagem do indizível . Segundo Modesto Carone, Georg Trakl, em seu descontínuo poético, elabora um poema constituído de unidades do discurso à margem do próprio poema. Como se houvesse uma estrutura encobridora de uma semântica outra em substituição. Trakl organiza as metáforas, para aproximar-se de uma tentativa em nomear o não-dito.

Desta forma, tende à negação do que já se verbalizou no âmbito da linguagem, do calculado dizível. Ao quebrar com o convencionalismo - não na esfera sintática, como os concretistas, nem no automatismo dos surrealistas, nem na liberdade dos futuristas - na combinação alógica das metáforas e na justaposição não-linear, supõe a sua estilização estética para revelar a leitura de um mundo fragmentado e estilhaçado pela primeira guerra, bem como de um mundo interno despedaçado pela própria psicopatologia. Ele viveu em meio às drogas e ao suposto amor apaixonado pela irmã. George Trakl nasceu em Salzburg em 1887 e morreu em 1914, aos 27 anos de idade, num hospital psiquiátrico.

E o indizível apresenta-se num horizonte que vai à contra-mão do sentido. Portanto, em sua aparência supostamente normativa, com as frases combinadas gramaticalmente, Trakl revela um novo código que está para além de um enigma ou de um hermetismo que o obscurantiza. É através da poesia que ele fala para o Outro, “o não-nascido”.

Em seu poema CANÇÃO DE KASPAR HAUSER, Trakl aponta para um sujeito solitário em sua impossibilidade de fala, mas com significantes de gozo não-articulados sintaticamente.

Kaspar Hauser, um jovem que aos dezesseis anos surge em Nüremberg, Alemanha (1828), sem falar, tendo apenas o conhecimento elementar de algumas palavras, na medida em que vai absorvendo-as pelo imperativo da força social que o exige, dilui-se num processo mortificante para a sua subjetividade, tornando-se um objeto manipulável. Em contrapartida, essas mesmas palavras servem de instrumento para a sua própria defesa.

Ao perceber que possui um caminho que atravessa a própria língua, mordido por uma dor que surge face à constatação da incomunicabilidade, desta mudez social que o angustia e o leva ao balbucio, Kaspar Hauser transgride e questiona a sua ontologia, pois apresenta, em sua também curta vida social, de 1828 a 1833, um rápido processo cognitivo muito além das expectativas para um jovem que foi encontrado supostamente “recém-nascido” perdido numa praça em Nüremberg. Havia uma carta em suas mãos onde continha o seu nome e de que tinha sido descoberto na porta da casa de um suposto preceptor que o acolheu e o colocou em um porão escuro para escondê-lo das pessoas . Neste ele viveu por dezesseis anos sem acesso à luz, às pessoas, ao aprendizado comum iniciado às crianças.

Kaspar é um enigma, um saber inconsciente “não-nascido”, pois assumiu para si o não-todo da linguagem, nesta tentativa de sair do monólogo para um diálogo. Não nasceu para o mundo e foi assassinado aos 21 anos de idade. E Trakl ao falar de Kaspar identifica-se em sua incapacidade de fala, ambos comungam com este traço alingüístico, ou seja, para além da literariedade das raízes lingüísticas.

Kaspar Hauser não se comunica, ele tenta falar e a sua fruição respinga sobre o próprio gozo infantil ao balbuciar os primeiros sons fonéticos para articular o seu saber que não se sabe, portanto um enigma mesmo. Essa articulação das coisas é ontológica e implica uma vertiginosa interrogação sobre a origem da vida do ser. Sem sintaxe que o aprisione, é torturado pelos sentidos do Outro, pelas frases e sobre-frases que se dirigem impositivas a ele.

Esta linguagem impositiva, quer dizer, específica de uma convenção lingüística, ou mais oportunamente, científica, regimenta uma ordem que controla o sujeito pelas ideologias que a sustentam. Para Lacan “(...) a linguagem é apenas aquilo que o discurso científico elabora para dar conta do que chamo alíngua” . Nesta perspectiva o que resta a este sujeito de fala, de gozo, neste emaranhado desarticulado que se pretende organizado para enredá-lo e deixá-lo estático sem discurso?

E o resto é silêncio... ou a poesia.

Cristina Dantas
SET/06

OBRIGADA JUCA FERREIRA!!

Desejo compartilhar com todos vocês uma das maiores experiências em teatro que já tive.

Fui assistir ao espetáculo "Viver sem tempos mortos" sobre a escritora Simone de Beauvoir, com a atriz Fernanda Montenegro, no teatro da Oi Futuro, no Rio de Janeiro. Todos os 84 ingressos foram vendidos ou estavam nas mãos de convidados. Então, para não perder a viagem, esperei persistentemente uma desistência. Quer dizer, esperamos, pois éramos três. As portas do teatro se abriram e lá estávamos nós, ansiosas por três desistências. Havia uma fila enorme e a cada ingresso que se rasgava na nossa frente, uma batida mais acelerada em nossos corações. Finalmente, o técnico do teatro nos procurou e disse que havia apenas UMA, UMA única desistência. Instalou-se uma tensão, mas decididamente propus que tirássemos a sorte! E para MINHA surpresa, GANHEI!! Corri e sentei-me na cadeira número 1 da fila D. Uma das primeiras frases que ouvi: "o acaso é a última palavra"!

Fatalidade ou não, fui abençoada pelo acaso e por acaso eu vi este espetáculo, por acaso a Sra. Fernanda voltou aos palcos depois de oito anos e, surpreendentemente, Juca abriu as portas para esta realização, haja vista o projeto ter sido REPROVADO, ao dar entrada numa lei de INCENTIVO À CULTURA, por uma suposta comissão que supõe-se juiz de... de que mesmo? Será que eles sabem o que pretensamente julgam? Qual critério para designar o que o outro deve assistir, o que o outro deve sentir, o que o outro deve pensar? Esta patrulha subestima o outro, subestima a nossa capacidade de pensarmos por nós mesmos, de sentirmos por nós mesmos, de sermos nós mesmos. Quando assistimos a uma peça, não sabemos o que ela pode nos revelar, qual sensação pode nos arrebatar, com qual intensidade podemos mergulhar em nossa própria alma a partir da imagem do outro, da peça ou de si mesmo. O que há é um espelho onde podemos refletir todas as nossas vivências, todas as nossas tristezas e alegrias. E a este reflexo ninguém tem acesso, ninguém pode ver, ninguém pode julgar!

Um palco, uma cadeira, um refletor e uma atriz, assim se fez o maior encontro teatral que eu já tive nos últimos tempos. Num palco pequeno e vazio, Fernanda chorou, sorriu e nos presenteou alguns instantes da vida de Simone de Beauvoir. As palavras emanavam imagens e existência. Não sabia para onde olhar, se para a atriz no palco ou para dentro de mim. As palavras atravessavam o meu espírito e não havia caras e bocas, não havia braços e pernas, não havia ruídos, não havia efeitos de nenhuma espécie. Era apenas a atriz e as suas palavras. O que eu tive a bendita sorte de ver era essencialmente teatro, da mais pura e silenciosa qualidade. Só os grandes e majestosos artistas conseguem fazer do silêncio um instante eterno. Longe das cores dos refletores, da tecnologia do tilintar dos bips e chips e da ignorância do histrionismo gratuito. Elas estavam a sós, Fernanda e Simone. As duas era um só corpo, sentado numa cadeira até o fim.

ERA APENAS UMA CADEIRA E UMA ATRIZ!!

Obrigada Juca Ferreira por proporcionar aos poucos privilegiados a oportunidade de poder ouvir e enxergar através da janela da alma de Fernanda Montenegro, realmente uma das maiores atrizes do nosso século. Uma rara atriz que consegue traduzir em imagens um texto narrado. A palavra dignamente também volta aos palcos depois de 8 anos. E dignamente caminha dentro de um feliz projeto de levá-la para a periferia a preços populares, dando a raríssima e necessária oportunidade de outros mundos poderem ouvir um texto bem dito e bendito!! De podermos, todos, sem distinção, ter o direito de ouvir e pensar através da palavra. Apenas da palavra. E isso é possível!! Evoé baco!!

Ao final do espetáculo fomos convidados para prosear com uma especialista em Simone de Beauvoir e a própria Fernanda Montenegro! Estavam presentes na platéia artistas reconhecidos pelo grande público, como Francisco Cuoco e Malu Mader, acompanhada do seu marido Toni Belloto, ex-Titãs. Entretanto, a este bate-papo também teve acesso pessoas anônimas, moradores distantes dos teatros do centro, por onde o espetáculo passou. E em meio às celebridades e anônimos, o primeiro comentário foi o meu, de uma simples atriz desconhecida do grande público, embriagada com a elegância e a sobriedade das palavras de Simone e com os olhos brilhantes de Fernanda. Agradeci diretamente a ela, Fernanda, pelo presente dos nossos acasos e, principalmente, por continuar fazendo teatro de uma forma tão contundente aos oitenta anos de idade!! São sessenta anos de carreira!! Sessenta anos tentando dar ao teatro a dignidade que ele merece!! Um momento ímpar na minha vida! Tão ímpar quanto poder ver novamente de volta aos palcos uma atriz de igual quilate e da minha terra, a Bahia, Yumara Rodrigues!! Só para lembrar aos esquecidos!!

Obrigada Juca Ferreira por não subestimar o outro, seja ele morador da periferia ou de um bairro nobre qualquer! Obrigada Juca Ferreira por dar alcance a estas vozes, Fernanda e Simone, e fazê-las ressoar o cântico da reflexão, da crítica e da liberdade! Obrigada Juca Ferreira por dar-nos a chance de ver legitimado um discurso democrático e não populista! Obrigada Juca Ferreira por permitir, inequivocamente, um teatro de extraordinária qualidade num mundo tão tecnocrata e abusivamente mascarado pela NEVERLAND!

Em êxtase,
Cristina Dantas, atriz
01:00 03/08/2009 RJ